"Atualmente todos vivemos em um mundo dominado pelas máquinas. Quase não restam em nosso deteriorado planeta espaços livres, onde possamos esquecer nossa sociedade industrial e testar, sem sermos incomodados, nossas faculdades e energias primitivas. Em todos nós se esconde uma saudade do estado primogênito, com o qual podíamos calibrar-nos com a natureza e enfrentá-la, descobrindo a nós mesmos. Aqui está basicamente a razão de não haver para mim uma meta mais fascinante que esta: Um homem e uma montanha. "

(Reinhold Messner)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Pico Paraná - O topo do Sul

Hoje é pra contar do grande dia! O dia em que finalmente fui pro Pico Paraná!



O Pico Paraná é a montanha mais alta do sul do Brasil, seu cume está a 1877m do nível do mar, pertence a Serra do Mar, no conjunto Ibitiraquire, localizado entre Antonina e Campina Grande do Sul no Paraná.  A litologia do Pico Paraná é de granitos (ígnea) e gnaisses (metamórfica) e está em região de clima e vegetação subtropical, composta por floresta ombrófila densa montana e campos de altitude. Pra montanhistas de primeira viagem, o PP não é o mais indicado, apesar de não precisar de muita técnica, precisa de um bom condicionamento físico e alguma familiaridade com montanhas, afinal, a média de subida é de 6 ou 7 horas de caminhada e é bastante cansativo.


Desde que comecei a me interessar por montanhas pra valer, o Pico Paraná passou a ser a grande cobiça dentre as montanhas mais próximas, afinal, o mais alto cume sempre tem seu "glamour" e se torna uma meta e um ponto indispensável pra qualquer montanhista do sul do Brasil.
Eu já tinha subido desde montanhas menores como o Anhangava e o Morro do Canal, até mais altas como o Marumbi, Itapiroca, Camapuã, Tucum, Cerro Verde (4 últimos fazem parte do conjunto Ibiratiquire, assim como o PP) etc., mas ainda faltava a oportunidade de ir até o mais alto. Foi então em janeiro deste ano ainda, 2011, que surgiu o convite de um amigo montanhista pra fazer a tão desejada ascenção. Claro que topei!

Fomos pra lá no dia 4 de fevereiro, em um grupo de 8 pessoas, 6 homens e 2 mulheres. Confesso que eu não fiquei totalmente à vontade, pois na verdade não conhecia ninguém do grupo, só o amigo que me convidou, mas nisso tudo bem, era todo mundo bem legal. Saímos pela manhã, em 2 carros, o caminho de Curitiba até a fazenda do PP é pegar a BR116 em direção a São Paulo, passar o "Posto Tio Doca", lá pelo km47, a ponte sobre o rio Manuel José e após esta, antes de chegar na ponte sobre o rio Tucum, entrar à direita em um acesso por estrada de terra, que tem uns 6km até a fazenda do Pico Paraná, uma propriedade particular onde se faz um cadastro dos montanhistas e tem que ser paga uma taxa de R$10,00, até então, o que é um valor a se considerar.... Nunca fui até lá de ônibus, mas há um ônibus da Princesa dos Campos que, pelo que já ouvi falar, te deixa na BR e é preciso andar o trecho da estrada de terra a pé.

Estávamos todos com mochila cargueira, pois os planos eram acampar no cume. Começamos a trilha bem, ela se inicia por uma trilha única que depois se divide para levar ao cume do Itapiroca e ao cume do Caratuva. Por essa trilha inicial se caminha aproximadamente 1h e meia até o cume do Morro Getúlio, talvez esse seja o pedaço mais cansativo da trilha, e no dia qm que fomos estava realmente muito ensolarado, o que nos permitiu uma bela vista em todos os momentos, mas também muito calor e muito mais cansaço, prefiro subir as montanhas no inverno, o tempo é mais estável e o corpo é aquecido pelo exercício físico e não pelo tempo abafado que pode levar até a passar mal. E o cansaço foi grande, a mochila pesada nas costas e o tempo quente, me trouxeram um mal estar em alguns momentos, às vezes diminuímos o ritmo mas continuamos seguindo sem muitas paradas. A trilha até o PP passa por uma bifucação á esquerda que leva ao Caratuva, e outra mais a frente, à direita que leva ao Itapiroca. Passando entre essas duas montanhas, em uma determinada etapa a trilha passa a ser uma descida, passa pelo Acampamento1 com espaço para 5 ou 6 barracas, aí já se está tendo uma bela vista da crista do Pico Paraná. Desce mais um pouco, e então se inicia a subida de fato do Pico Paraná, pela crista, onde há vários trechos com grampos, até o Acampamento 2, com espaço para umas 7 barracas, onde a trilha se bifurca em outra que leva ao cume do Camelos. Estávamos já bem cansados nessa parte e o tempo apesar de lindo até então, prometia chuvas a noite, então pensamos em montar o acampamento no A2 mesmo, porém, a maioria venceu, e fomos acampar no cume mesmo! Continua-se subindo mais um pouco, até finalmente alcançarmos a pedra do cume, a 1877m, após 7 horas de caminhada, com uma vista maravilhosa, de todas as montanhas em volta. A vista durante a subida também é muito bonita, em vários momentos a vegetação abre para revelar a bela serra, e aliás, a foto de apresentação desse blog foi tirada lá!




 no Getúlio


 No cume do Pico Paraná


No momento em que se alcança o cume, o sentimento é um prazer único. O máximo prazer físico e mental que se pode ter, quando o corpo finalmente pode se sentir relaxado, a respiração volta à tranquilidade, os olhos contemplam o horizonte mais belo já visto até então, e o sentimento é de vitória, superação e muito bem estar, sentindo o vento frio bater no rosto quando você está no topo do mundo, do seu mundo.



Na verdade, demos é muito azar na nossa chegada ao cume, logo quando chegamos, já começaram a chegar várias nuvens carregadas, e podíamos ver tempestades caindo fortes em vários pontos a nossa volta. Foi o tempo de montarmos as barracas, fazer um miojão rápido e pronto, fomos logo pra dentro da barraca, porque havia começado a chover!



E a noite foi tensa! estávamos em 4 pessoas em cada barraca, apertados e morrendo de medo vendo os clarões de raios entre as nuvens e pensando que éramos o melhor para raio do sul do Brasil hahaha. Ainda assim a chuva que caiu não chegou a ser nenhuma tempestade de fato, pelo menos isso, mas choveu a noite toda.

No domingo após a noite mal dormida, acordamos de manhã e tinha parado de chover e a paisagem estava linda no cume do PP, um mar de nuvens beem baixas envolvendo todas as montanhas do conjunto, e eu que já amo um mar de nuvens, adorei essa manhã, com um vento feroz nos gelando até a alma. Mar de nuvens sempre nos dá a sensação de estar acima de tudo, além da realidade, vendo a Terra de outro ângulo, e quando bate o vento, o desconforto do frio é superado por uma sensação de vida e liberdade.







Iniciamos a descida, que pelo menos na minha opinião é sempre mais tranquila que a subida, mas muita gente discorda... Mesmo assim sofri um pouco, ainda mais porque a sola da minha bota direita se descolou quase inteira e a de um amigo do grupo também, aguentamos até o fim pisando em poças e lama e tudo isso entrando direto no pé, bem desconfortável...
A volta do Pico Paraná é longa, não lembro ao certo, mas foram algumas horas também. Quando chegamos na fazenda, já que pagamos R$10,00, muito justo que pudemos tomar um banho quente na casinha de lá.

Adorei chegar finalmente no Pico Paraná e pretendo voltar lá em breve, fazer a subida com melhores condições físicas e pegar um dia sem chuvas, pra poder curtir um belo pôr do sol e admirar a lua e as estrelas a noite, pois a sensação deve ser única! Recomendo a todos, mas vão em bom estado físico e com alguém que conheça a trilha também!

Fotos por Veleda Müller e Murilo Lense.

6 comentários:

  1. Veleda, ficou muito bom! As fotos, o texto, as informações... tudo ótimo! Até eu (que não aguento nem o Anhangava direito) fiquei com vontade de subir o PP depois de ler o post. =]

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  2. hahaha, valeu Rê! mais uns treinos e todos conseguem subir o PP! =D

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  3. Veleda,

    lindíssimas fotos, parabéns pela trip!

    estou examinando seu blog adorável, já pus no meu como favorito,

    abs,

    nilson Soares
    www.baiaodeideias.blogspot.com

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  4. Legal o relato e as fotos, pequena caloura! O teu trabalho e o do Junior, como fotógrafos, é excelente.

    Já subi Anhangava, Morro do Vigia e Morro do Canal - onde também acampei por 3 dias, depois de caminhar da BR-277 até à chácara que fica no pé do morro -, além de ter feito o Caminho do Itupava.

    Alguns amigos e colegas da Geologia já subiram os morros que tu citaste no texto. Isso aumentou meu fascínio pelos morros e trilhas que ficam ao norte da Serra do Mar, em direção à divisa com São Paulo.

    Quando tiver um carro próprio, quero conhecer esses lugares, assim como a Serra do Quiriri, em SC. O brabo é que meus amigos mais próximos têm trocado esse expediente pelas baladas =p

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  5. Me impressionei demais com seu blog. Parabéns pela escrita (de primeira!) e pelas viagens todas!

    Obrigado por compartilhar um pouco de suas viagens aqui.

    Abraço ^^

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  6. Showwwww de relato.... por acaso teria o tracklog da imagem do google earth???

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