"Atualmente todos vivemos em um mundo dominado pelas máquinas. Quase não restam em nosso deteriorado planeta espaços livres, onde possamos esquecer nossa sociedade industrial e testar, sem sermos incomodados, nossas faculdades e energias primitivas. Em todos nós se esconde uma saudade do estado primogênito, com o qual podíamos calibrar-nos com a natureza e enfrentá-la, descobrindo a nós mesmos. Aqui está basicamente a razão de não haver para mim uma meta mais fascinante que esta: Um homem e uma montanha. "

(Reinhold Messner)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Itupava com a luz da morte

Sobre o Caminho do Itupava já postei aqui uma vez, agora, sobre o dia que todo mundo ficou com as pernas tremendo tendo que pular da ponte, ainda não falei...



Pra retomar, o Caminho do Itupava é a trilha de 22km que se inicia aos pés do Pico Anhangava, em Borda do Campo, e termina quase aos pés do Pico Marumbi, em Porto de Cima - Morretes. O trajeto é predominantemente uma descida, e no fim em Morretes, a altitude é de mais ou menos 30 metros do nível do mar, então podemos dizer que descemos 960 metros!
Apesar de ser uma grande descida, a trilha é exigente principalmente devido a extensão, de 22km sobre um terreno, obviamente, acidentado.

 No Cadeado. Cargueira nas costas! (à direita)                                                                                            


O caminho do Itupava é um dos principais pontos do ecoturismo do Paraná, por não ser só uma simples trilha no meio do mato. Durante muitos anos foi a única via de ligação entre Curitiba e o litoral, até 1873, quando foi concluída a Estrada da Graciosa. Também torna-se um caminho histórico pois a  ferrovia Curitiba-Paranaguá, construída por volta de 1885, acompanha o Caminho do Itupava, cruzando este duas vezes: na Casa do Ipiranga, usada como depósito e abrigo para os operários da ferrovia, hoje em ruínas; e no Cadeado, usado como escritório da comissão construtora da ferrovia, ponto do qual tem-se uma visão muito bela do conjunto do Marumbi. Durante o caminho, também se passa pela roda d´água, no rio Ipiranga, antes usada para fornecer energia elétrica a Casa do Ipiranga. A partir do Cadeado, também há uma trilha secundária que leva até a antiga represa  do Véu da Noiva, a cachoeira do Véu da Noiva e  a estação do Véu da Noiva, também em ruínas. Seguindo o caminho, a partir do Cadeado, inicia-se a chamada "trilha do sabão", onde a descida é bastante íngreme e as pedras costumam estar muito lisas devido a umidade, daí o apelido.  O caminho continua, margeando o rio Nhundiaquara, até Porto de Cima.
Na casa do Ipiranga.
 Cachoeira do Ipiranga - Roda d´água


 Nossos planos nesse dia eram fazer o Caminho do Itupava com mochila cargueira, para acampar no camping do Marumbi, e se possível no dia seguinte subir o Abrolhos, e voltar de trem.
4 de nós já tinham feito o caminho, outros 3 não, mas ninguém imaginava que acabaríamos por demorar tanto tempo. Um pouco devido à mochila cargueira, que fazia-nos jogar o tronco pra baixo pra descansar os ombros, toda hora. Um pouco pelo despreparo físico de alguns. O resultado foi que chegamos ao Cadeado umas 19 horas, quando estava anoitecendo, e fazer a trilha do sabão com mochila pesada, no escuro e com a galera cansada já, não pareceu uma boa idéia.

 No cadeado, já a noite.
vista do Marumbi no Cadeado, entardecer com um belo mar de nuvens no cume!

Optamos assim, por terminar o percurso, seguindo pela linha do trem... o que, na verdade, é proibido. Não se pode trafegar a pé pela linha do trem, e toda vez que ouvíamos que o trem ia passar, tinhamos que nos esconder no meio do mato pra não sermos vistos. Se não, a ordem é para levar quem estiver trafegando a pé pelos trilhos, até Paranaguá, e não podíamos correr esse risco...

Seguindo pela linha do trem, a noite. 

Passar pelos trilhos na total escuridão, tendo q tomar cuidado, com a ajuda da lanterna, pra não tropeçar, já estava deixando tudo mais emocionante, mas até aí tudo bem... até chegarmos na ponte do Carvalho.

Toda vez que iamos atravessar uma ponte parávamos para ouvir se havia algum trem chegando, não fazendo diferente dessa vez, não ouvimos barulho próximo e decidimos seguir em frente. Quando estávamos quase no meio da ponte, simplesmente vimos a luz dos faróis de trem brilharem na nossa cara!
O que ouvi nessa hora foi: "PULA, SAI DA PONTE!"

Nessa hora o pânico bateu em todo mundo, saímos correndo em direção aos extremos  da ponte, onde ficam as sapatas, a uma altura do chão q deu pra pular, seguramente, apesar do desespero. Mas nem todos conseguiram....

um de nossos companheiros, que já tinha ficado mais cansado durante a trilha toda, não teve a reação de correr para os extremos da ponte. Ele sentou na borda da ponte e tirou a mochila para o lado, para não ser pego pelo trem. Nisso, a mochila que não ficou em equilíbrio, caiu la pra baixo!
Se a reação dele seria pular da ponte, a gente não sabe, mas demos sorte.

Não ouvimos o trem de longe, por que o que vinha na verdade não era um trem e sim um auto-de-linha, aquele que é um vagão só. Por ser um veículo pequeno, ele conseguiu nos ver na ponte e parar!

Quando o vagão parou, saíram vários operários de dentro dele vindo prestar socorro, perguntando quem tinha caído da ponte. e nisso até nós que tinhamos saído da ponte achamos que um de nós poderia ter caído, mas por sorte, quem caiu foi só a mochila.
Como a mochila tinha caído não do lado precipício e sim, no lado do morro, acabou que não foi parar muito lá em baixo, e os operários do trem nos ajudaram a pega-lá.

No fim, foram legais com a gente e só nos alertaram que não deveríamos ir por ali, porque se fosse um trem, a história podia ser diferente e a luz podia ter realmente sido a luz da morte!

Não houve nada sério, mas foi o suficiente pra deixar todo mundo apavorado na hora, morrendo de medo, pois para nós a hora que a luz chegou na nossa cara, parecia realmente que estávamos perdidos! hhahaha




Não havia outra escolha que não fosse, começar a dar risada do acontecido, e terminar a trilha. Chegamos no camping do Mrumbi era umas 21hras, e demoramos cerca de 12 horas pra terminar o Caminho do Itupava nesse dia.
Acampamento montado, vários miojos de pimenta, macarrão, sopão, atum e tudo que tinhamos foi pra panela, e nunca comemos uma mistureba tão boa!




No dia seguinte, acabou que ninguém tinha fôlego pra subir o Marumbi, nem o Abrolhos mesmo, e ficamos só pelo Rochedinho, deslumbrando uma das visões mais lindas do Marumbi que já tive, num dia totalmente aberto, e fomos tomar um banho na piscina natural do Cemitério dos Grampos. E continuar claro, a comer tudo que sobrou do dia do anterior, e ainda o que não tinha sido usado, comemos tanto que até hoje damos risada das misturebas maravilhosas.

Marumbi
Galera escalando! Já servem de escala... 

Abrolhos
Voltamos de trem para Curitiba e com uma bela história pra contar, devido ao perigo, foi uma das coisas mais emocionates que já vivemos!

Camping do Marumbi visto do Rochedinho


1- ainda assim recomendo ir pelo trilho do trem, o caminho é bonito e emocionante.
2-Caminho do itupava de cargueira, é pauleira!
3- Nunca subestime a fome.


Rochedinho.

5 comentários:

  1. Veleda,

    que boa inveja senti...

    abs,

    Nilson soares

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  2. Ahhhhhh esses trens, sempre nos assustando... quase nos pegaram na ponte dos arcos, quase nos atropelaram na estação do marumbi, mas nos salvaram uma vez no cadeado... bela aventura a de vcs...

    JOPZ

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  3. Como chegar no início da trilha saindo de Curitiba?

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  4. Quantas hora demora pra descer pelo trilho do trem?

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  5. Quantas hora demora pra descer pelo trilho do trem?

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