"Atualmente todos vivemos em um mundo dominado pelas máquinas. Quase não restam em nosso deteriorado planeta espaços livres, onde possamos esquecer nossa sociedade industrial e testar, sem sermos incomodados, nossas faculdades e energias primitivas. Em todos nós se esconde uma saudade do estado primogênito, com o qual podíamos calibrar-nos com a natureza e enfrentá-la, descobrindo a nós mesmos. Aqui está basicamente a razão de não haver para mim uma meta mais fascinante que esta: Um homem e uma montanha. "

(Reinhold Messner)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

2017 Mountain year chegando ao auge!


Saudações às almas aventureiras, escrevo esse texto durante o vôo de Santiago a Punta Arenas, no Chile.
Saindo de Santiago rumo ao sul.
Estou já a caminho da tão esperada Patagônia, o céu está um tapete de nuvens, porém há alguns cumes que passam as nuvens, se vê muito pouco deles, mas aparecem como pequenas ilhas nevadas. Acabo de passar por janelas nas nuvens e ver algumas largas montanhas totalmente nevadas, com seus vales preenchidos pelos glaciares. 

Os Andes são mesmo incríveis, um maciço gigantesco e inacabável em extensão, com as estruturas marcadas pelos estratos nevados, e vulcões cônicos despontando em meio ao orógeno. 

Ainda é um mistério o que encontrarei no sul, estarei pelo menos 12 dias embarcada com 7 pesquisadores e 4 tripulantes. Dentre os pesquisadores somos 1 chileno metamórfico, 1 chileno granitólogo, 1 argentino estruturalista, 2 americanas da análise de bacias, 2 estudantes que também estudam os granitos e ofiolitos, e eu que no momento sou um pouco de cada uma dessas coisas... estou extremamente curiosa para descobrir esse geologia, que promete ser diferente de tudo que já estudei, já que não tive muito contato com rochas vulcânicas e vulcanoclásticas, que ainda por cima estão deformadas!! O que me anima muito! Saber que vou ver dobras, xistosidades e foliações miloníticas, essas coisas que já me fascinam, mas ainda em rochas de um contexto vulcânico que desconheço. Nesses dias não haverá contato com o mundo "real", ou talvez eu vá estar de fato no mundo "real". Vivendo o que sempre desejei, aventuras e ciência, imersa nas montanhas mais emblemáticas da América do Sul, em um ambiente inóspito e selvagem, sentindo os ventos míticos que assustam os homens.
Parede do Cerro Fitz Roy entre as nuvens.
Estar aqui com certeza é resultado de muita dedicação, movida por uma intensa paixão pelas montanhas, que nasceu há alguns anos atrás, e pela natureza, que cresci a vida toda cultivando. 

No início do ano escrevi um texto sobre 2017, que deveria ser o ano da montanha na minha vida, o mais intenso nesse sentido, e de fato está sendo. 

O ano começou com a travessia na Serra do Quiriri, que há muito tempo eu queria conhecer e foi melhor que o esperado. As paisagens são mesmo incríveis nos campos, que trazem uma paz como poucos locais me trouxeram até hoje. Foi uma travessia intensa , seguindo pelos rios e atravessando os vales pela mata, onde não havia nenhuma trilha, carregando a mochila de 15kg sob neblina intensa. Também caminhamos expostos nos campos, com vários episódios de chuva forte, seguida de sol forte, e vento forte, tudo alternado, e deixando a experiência ainda mais divertida. 
Pedra da Tartaruga, Serra do Quiriri.
Em meados de abril, finalmente conheci a Serra da Mantiqueira. Fui com os mesmos melhores companheiros de trilha do Quiriri, os caramujos, e tivemos um dia incrível nas rochas da travessia Couto-Prateleiras, exigindo muita energia e cuidado na escalaminhada do Cume das Prateleiras, com vista espetacular para o Agulhas Negras e a Serra Fina. Foi fantástico conhecer esse setor das nossas serras do leste brasileiro, pois é enorme! Há incontáveis quilometros de rocha exposta e vom formas distintas de erosão, com formas diferentes das que conhecemos na Serra do Mar Paranaense, o melhor, parecem nao ter fim! 
Serra da Mantiqueira, Agulhas Negras ao fundo.
 Ainda teve a escalada que entrou na minha vida e a deixou ainda mais colorida e cheia de aventura e contato com a natureza! Este ano tive a oportunidade de escalar no Morro do Anhangava, Morro do Canal, Pico Itapiroca, São Luís do Purunã, Ponta Grossa, Piraí do Sul, e até na Serra do Cipó em MG. Cada um desses lugares foi especial e descobri novos desafios, novas técnicas, novos estilos de escalada, e fui me fortalecendo, aprendendo os procedimentos e me sentindo cada vez mais a vontade no esporte que já faz parte da minha rotina, e parece que sempre deveria ter feito. Também nesse meio encontrei pessoas incríveis e igualmente apaixonadas pelas aventura, e inclusive o amor que esperava há algum tempo... desfrutei dos mais belos pores do sol, acampei com a frequência que por muito tempo desejei, e conheci de perto outros aspectos das rochas. 
Graças a isso, hoje sou muito mais saudável, cuido da minha alimentação, dos meus hábitos, me importo menos com aparências e mais com a simplicidade de estar em paz na natureza, aproveitando as manhãs e anoiteceres em meio aos maciços rochosos. 
Fim da via Injustiça Social (VI) na Serra do Cipó.
No pico do Inverno, ainda teve o Atacama, que foi uma experiência surreal. O deserto do Atacama é como se fosse outro planeta, é todo alaranjado, de rocha bruta, sem quase nada de vegetação, expondo uma geologia maravilhosa e singular. Cheio de cones vulcânicos recentes, derrames de lava e rochas explosivas, em meio a salares e lagoas das mais variadas cores, que são fonte de vida para os seres mais primitivos que conhecemos. Aí ainda vi muita neve, e presenciei a terra viva, nos geiseres! Muita emanação de gases do interior da terra, gerando calor e propiciando a vida de uma serie de seres, dos menos aos mais desenvolvidos, como vicuñas, flamingos, e  viscachas. Também teve a altitude, que finalmente conheci de perto e sim, passei mal ao não saber lidar com ela. No final desta viagem, também conheci o Deserto do Uyuni e as montanhas da Bolívia, que serão pra sempre uma das cenas mais impactantes guardadas na minha memória, com o barulho dos milhares de flamingos povoando os lagos que refletiam os montes vulcânicos nevados, a frente da lua crescente e da via láctea límpida, e sem quase nenhum sinal da vida moderna e da infestação humana. 
Valle de la Luna, Deserto do Atacama.
Céu entre os Andes Bolivianos.
Depois de tudo isso, de poder ter estado uns 80% do meu tempo imerso nas montanhas, seja em forma física ou mesmo na imaginação, lendo os textos dos meus estudos, finalmente chego ao grande objetivo: a Patagônia!! 
Escreverei outro texto após o trabalho de campo, mostrando o que há de mais belo e contanto as aventuras que espero viver por aí!

Esse texto provavelmente só será publicado depois da viagem também, já que o escrevo do avião e a partir de agora é do aeroporto para os fjords gelados!! 
Glaciar Viedma, Patagônia.
Drumlings (formas da escavação do terreno por glaciares) em Punta Arenas.
É isso, boas aventuras nas alturas ou não, aproveitem e explorem o que o planeta tem para nos oferecer :)

Veleda Muller, 2 de outubro de 2017.

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